“A relação médico-doente está a ser despersonalizada”, assume o Bastonário da Ordem dos Médicos

“A relação médico-doente está a ser despersonalizada”, assume o Bastonário da Ordem dos Médicos

 

"A palavra chave é o tempo. Sem tempo não há uma boa relação médico-doente. Para a economia da saúde, os doentes são os clientes externos e os profissionais de saúde são clientes internos, numa total despersonalização dos cuidados de saúde que nós temos todos de evitar e combater". Palavras de José Manuel Silva, Bastonário da Ordem dos Médicos, numa conferência dedicada ao tema "Relação médico doente como Património da Humanidade", cujo evento encerrou as comemorações dos 25 anos de ensino de Medicina Geral e Familiar da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Na senda deste raciocínio, José Manuel Silva sublinhou: "É preciso que o doente se sinta respeitado pelo médico, que este o esteja a ouvir e não a olhar para o relógio".
Os desafios tecnológicos, o progresso científico, os modelos de financiamento, a gestão dos recursos humanos em Saúde foram aborados ao longo da conferência que decorreu no histórico e emblemático Café de Santa Cruz, em Coimbra.
José Manuel Silva, regente da cadeira de Medicina Geral e Familiar na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, insistiu na necessidade de "ter tempo" face às constantes ameaças contra a disponibilidade dos profissionais face aos seus doentes e, também, do primado da tecnologia em detrimento da relação humana: desde a "McDonalização da Medicina" que, a seu ver, ocorre quando "os médicos tem de corresponder rapidamente às necessidades dos consumidores"; ao "Dr. Google" que ajuda ao compêndio de informação "mas não se tem acesso ao conhecimento; o doente continuará a precisar do médico"; até aos "cibercondríacos".
Aliás, sempre com o ‘tempo' como fio condutor da sua intervenção, José Manuel Silva assumiu: "Só conseguimos bons resultados com tempo e a sociedade não está a dar tempo, porque o tempo tem custos". E sem tempo, assevera, os médicos não conseguem estabelecer as cruciais relações com os doentes, daí resultando como "um dos fatores de desgaste e exaustão" dos profissionais.
Logo no início da sua intervenção, José Manuel Silva declarava: "Falar da relação médico-doente não é um desafio porque nós a vivemos diariamente. Para mim, resume-se naquela frase que felizmente que todos os médicos já tenham a oportunidade de ouvir: aqui já me sinto melhor. Isso é a relação médico-doente.".
Recorde-se que, no dia 2 de junho, no âmbito do Forum Iberoamericano das Entidades Médicas que se realizou em Coimbra, foi anunciado o projeto de candidatura à classificação pela UNESCO da relação médico-doente como Património Imaterial da Humanidade.
Ora, sem médicos saudáveis, disse mais adiante, a sociedade também não o será. "Uma relação mercantil interpôe-se na relação médico-doente", disse ainda, dando conta que "uma das funções do médico é desmistificar estas falsas necessidades de cuidados de saúde". Mas, para que tal aconteça, é preciso tempo. "A palavra-chave é o tempo". Sem ele, há lugar à desumanização, repetiu José Manuel Silva, perante dezenas de pessoas, uma das quais, António Arnaut, a quem o Bastonário da Ordem dos Médicos apelidou de "património material e imaterial do nosso Serviço Nacional de Saúde".
Coube a Hernâni Caniço, atual coordenador da Unidade Curricular de Medicina Geral e Familiar da FMUC, apresentar o conferencista de quem destacou a experiência, virtude e sapiência, a lucidez, a bonomia e a sua capacidade de análise, bem como o rigor e a exigência.
Enquanto decorreu a conferência, a caricaturista Mimi desenhou a caricatura do Bastonário da Ordem dos Médicos. A oferta do talentoso trabalho culminou a conferência e o encerrramento da comemoração dos 25 anos de ensino de Medicina Geral e Familiar da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

 

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