300 jovens médicos no Juramento de Hipócrates da SRCOM

300 jovens médicos no Juramento de Hipócrates da SRCOM

O Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra encheu-se de familiares e amigos dos jovens médicos recém -licenciados que, no passado dia 29 de novembro, cumpriram o Juramento de Hipócrates.

 

Na cerimónia promovida pela Secção Regional do Centro(SRCOM) foram entregues as cédulas profissionais e  – novidade este ano – um pin com o símbolo da Ordem dos Médicos. E por ser um dia tão marcante na vida dos médicos, a SRCOM não deixou nada ao acaso, primando pelo bem-estar das quase mil pessoas presentes neste encontro.  A pensar nisso, e de forma a dar maior ênfase ao Juramento de Hipócrates, os jurandos foram brindados com as belíssimas palavras proferidas por D. Ximenes Belo. O Nobel da Paz (1996) lembrou Hipócrates e, evocando o juramento, desafiou os jovens médicos a dedicarem-se, de corpo e alma, à profissão.

“Formaste-vos para dedicar a vossa competência à sociedade em que viveis, por isso, a saúde dos homens deve ser o centro da vossa atenção”, disse.

Apelando ao humanismo, D. Ximenes Belo defendeu que a “pessoa humana não é um ser abstrato. Na saúde deve olhar-se o homem com um nome, uma profissão, uma família, uma história. Essa pessoa tem direitos e deveres.  Não é por acaso que a medicina deve sempre fazer a história de cada doente, não só pelas crises que viveu, mas pelos pequenos e grandes pormenores que tecem a vida do homem e mulher”.

“ O doente é a pessoa humana em crise mas também em esperança” , realçou, ao mesmo  tempo que enfatizou o facto da humanização dos cuidados de saúde não ser possível sem “competência, atualização e avaliação constante”.

 

“Estão obrigados a lutar contra a doença e contra o sofrimento dos outros.”

 

Também os valores fundamentais do humanismo não foram esquecidos  no discurso proferido pelo Presidente da SRCOM, Carlos Cortes. Esta “cerimónia liga-vos aos milhões de médicos que, desde o início da Humanidade, lutaram persistentemente contra a doença e contra os males do corpo e da mente. A vossa dedicação e entrega construirão pontes para que os médicos de amanhã consigam feitos que a arte ainda não nos disponibiliza hoje, mas que os avanços da medicina, da tecnologia e da Humanidade, suportados por vós, poderão alcançar no futuro. A partir de agora, têm a responsabilidade, nas vossas mãos, de legar aos médicos de amanhã aquilo que receberão dos médicos de hoje. Fazem parte desta corrente inquebrável de transmissão da virtude humanista e do saber médico de geração para geração”.

O tratamento do doente, deve ser, nas palavras de Carlos Cortes, o propósito de todos os médicos.  “Lutem pelo vosso doente, dignificando a ética e a deontologia que os vossos mestres vos ensinaram”, apelou, dizendo ainda que “o vosso doente, que tudo depositou em vós, espera-vos para receber a vossa entrega, o vosso sacrifício e o vosso afeto. O bem-estar dos outros depende agora de vós. Essa é a vossa responsabilidade para com a Humanidade, essa é a vossa fé, esse é o vosso papel na vida dos homens. Nunca o apaguem do vosso pensamento”.

Carlos Cortes deu conta do enorme desafio que os médicos enfrentam: “Hoje, muitos médicos desiludidos, desmotivados, desistem de praticar a Medicina em Portugal. Na Região Centro, este ano, 278 Médicos já solicitaram à Ordem dos Médicos, certificados para poderem exercer no estrangeiro, 65% deles têm menos de 40 anos. Com toda a certeza, muitos não voltarão. Em dezembro, se todos os candidatos concorrerem às vagas de especialidades médicas disponíveis, mais de 70 não terão a possibilidade de continuar a sua formação especializada essencial para responderem às necessidades em Saúde.

Tudo isto irá concorrer para o vosso desconforto e desmotivação. Tudo isto irá concorrer para que apaguem o juramento que têm agora nas vossas mãos.”

Nunca como hoje o juramento será, pois, tão importante e, por isso, o Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos enfatizou: “O Juramento de Hipócrates, é o juramento do humanismo, da entrega ao serviço do bem, da resistência ao adverso, dos valores que a luz da Humanidade depositou na prática da Medicina. E por este Juramento estão obrigados a lutar contra a doença e contra o sofrimento dos outros, mas também, pela vossa consciência cívica, contra o esquecimento, contra a ignorância e contra a frieza daqueles que só veem na saúde um instrumento de aproveitamento político e mercantilista, próprio de outros palcos. Ser Médico é ser exigente com o seu saber e é ter a compaixão e a humildade de estar ao serviço daqueles que de nós precisam, para sempre, e em qualquer circunstância”.

 

“O médico é um homem bom, perito em medicina”

 

José Manuel Silva demonstrou o orgulho que sente em ser Bastonário dos jovens médicos.  “Olhando para vós, e conhecendo o vosso trabalhoso percurso, sinto que está garantido o futuro e a qualidade da medicina portuguesa!”.

Lembrando a personalidade eclética e irrequieta de Egas Moniz – uma vez que no dia 29 de novembro se celebrou o centésimo quadragésimo aniversário do nascimento de Egas Moniz, prémio Nobel da Medicina em 1949 – o Bastonário da Ordem dos Médicos (OM) reconheceu como  “é essencial, sem quaisquer contradições, que os médicos dediquem mais atenção e tempo à intervenção política”. Nesta linha de pensamento referiu ainda que, já em 1614, o notável médico Rodrigo de Castro publicou a sua obra magistral, intitulada “O Médico Político”, na qual define o médico com uma frase muito singela mas de profundo significado, “o médico é um homem bom, perito em medicina”.

“Esta dimensão política do cidadão médico faz todo o sentido na sociedade atual, pois os problemas vividos e sentidos por todos nós no Sistema de Saúde, profissionais e doentes, não são problemas intrínsecos à Saúde mas sim secundários à crise político-económico-financeira do país”.

Considerando o SNS – pelo menos até 2011 – como o melhor Serviço Nacional de Saúde do mundo, José Manuel Silva apelou para que, “ além de excelentes médicos, com um apurado sentido de humanidade, honestidade e respeito pelos doentes”, os jovens médicos “sejam também cidadãos de corpo inteiro, ativos, interventivos, críticos e exigentes, adotando o exemplo de Egas Moniz e de D. Ximenes Belo e participando na vida pública e política deste país”.

Enumerando as dificuldades crescentes que se levantam aos doentes e médicos – como por exemplo as interferências na relação médico-doente e as dificuldades informáticas na prescrição, a proletarização e crescente emigração dos médicos, o numerus clausus desmedido, o excesso de alunos e a deficiente formação pré-graduada, a insuficiente e cada vez mais reduzida capacidade formativa pós-graduada, entre outras – realçou que para “enfrentar determinadamente estas dificuldades, relatem-nos os problemas e obstáculos com que se depararem no vosso dia-a-dia clínico e contem sempre com a Ordem dos Médicos e as outras associações que vos representam, nomeadamente os Sindicatos Médicos, para intervirem. Sozinhos somos frágeis, juntos temos uma força imparável, como demonstrámos já em duas grandes mobilizações dos médicos. Não desanimem nunca, deveremos manter-nos mobilizados, unidos e em estado de prontidão permanente”.

“Sejam, de facto, os Provedores e a Voz dos vossos doentes. Não permitam que nada nem ninguém limite o direito dos doentes a terem acesso a uma medicina de Qualidade”, concluiu.

 

Depois de ouvirem, atentamente, as palavras a eles dirigidas os jovens médicos receberam, num ambiente de grande emoção, as cédulas profissionais. Após a tradicional fotografia de grupo, o dia de festa e convívio entre familiares e jovens médicos continuou desta feita num almoço convívio promovido pela SRCOM.

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Ordem dos Médicos