Fórum Envelhecimento Ativo e Saudável – razão, conceito, transformação

Fórum Envelhecimento Ativo e Saudável – razão, conceito, transformação

O Fórum Envelhecimento Ativo e Saudável "Inovar é Viver, Olhares", realizou-se nos dias 20 e 21 de setembro na Figueira da Foz, no Centro de Artes e Espetáculos (CAE) e encerrou, em si, um contributo, das Ordens Profissionais – nomeadamente da Ordem dos Médicos que aí se fez representar na Comissão Organizadora, através de Hernâni Caniço, e no Plenário, também pelo Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes.

O apoio da Câmara Municipal da Figueira da Foz, do seu Presidente João Ataíde e do seu staff técnico, foi essencial para o sucesso do evento multiprofissional, multidisciplinar e multicultural, constituindo um panegírico da temática, da concertação de ciência e arte e da conciliação de objetivos para as pessoas mais velhas.

 

Razões e substância

 

Consideraram-se como razões para a organização do Fórum pelas ordens profissionais em conjunto com a sociedade civil, o facto de as Ordens serem Organizações Não Governamentais para qualificação, desenvolvimento profissional contínuo, gestão do exercício e desempenho técnico, mas também agentes de serviço público, mesmo se liberal, serem elites em capacidade, rigor, competência e valor, mas não em arrogância, pedantismo ou promoção da subserviência, e serem parceiros das estruturas organizadas da comunidade, a quem se destina o seu trabalho, e onde se encontra saber, experiência e recursos.

 

A polivalência do programa abrangeu a sua designação e conteúdo (Inovar é viver, olhares), o debate sobre as pessoas mais velhas (estatuto e função, saúde e vida, criar é viver, canto sem idade), o envolvimento das estruturas comunitárias, e a abordagem da ciência, pedagogia e promoção dos estilos de vida saudável.

 

Da reflexão sobre este o tema, pretende-se que as conclusões que daí decorreram “possam servir de base à definição e estabelecimento de projetos e programas de boas-práticas inovadoras no domínio do Envelhecimento Ativo e Saudável”, manifestou Ana Cristina Ribeiro Rama (Ordem dos Farmacêuticos), Presidente do Fórum Regional do Centro das Ordens Profissionais. 


O tema adquire relevância face à criação, em 2013, do consórcio Ageing@Coimbra, conforme se discrimina.

Em meados de 2012, a Comissão Europeia, através da Parceria Europeia para a Inovação no Envelhecimento Ativo e Saudável, lançou convite público à manifestação de interesses conducente à admissão de novos parceiros. Neste contexto, a Universidade de Coimbra, através da Faculdade de Medicina e da Divisão de Inovação e Transferências do Saber (DITS), apresentou compromissos de implementação de programas de intervenção no domínio do envelhecimento. Este programa serviu de substrato à apresentação da candidatura da Região de Coimbra (e de modo mais abrangente da Região Centro de Portugal) a Região Europeia de Referência para o Envelhecimento Ativo e Saudável (projeto Ageing@Coimbra), tendo o estatuto sido atribuído a 1 de Julho de 2013 na cerimónia Reference Sites Star Award em Bruxelas.

A Região Centro tornou-se assim a única região portuguesa com esta distinção e uma das 32 regiões europeias atualmente existentes.


Conceitos e polivalência


Desta forma, a escolha do tema central das atividades do Fórum para 2014 foi quase imediata automática: o envelhecimento ativo e saudável. A transversalidade do tema exige uma reflexão aprofundada com o contributo de profissionais das mais diversas áreas, dos responsáveis políticos e da sociedade civil.

Assim, no dia 20 de setembro, durante o dia, o Centro de Artes e Espetáculos (CAE) da Figueira da Foz acolheu diversas personalidades convidadas a refletir sobre “o envelhecimento ativo e saudável”.

 

Seguiu-se a realização da feira solidária “Criar é viver” no foyer do CAE, inaugurada pelo Presidente da Câmara da Figueira da Foz, João Ataíde, onde instituições de solidariedade social da Figueira da Foz expuseram os seus trabalhos, elucidativos da mais-valia das pessoas mais velhas, suas artes e ofícios, em convergência com a motivação dos participantes pelo espírito de proximidade.

 

À noite, o Grande Auditório do CAE acolheu a atuação do Grupo Coral David de Sousa e do Coro das Pequenas Vozes da Figueira da Foz, no espetáculo “Canto sem idade”, que perpassou como ideia, acão, abraço.

A ideia que a solidariedade intergeracional é possível e útil, e a felicidade não é fútil. A ação, com todas as forças, de valorizar, respeitar, cuidar as pessoas mais velhas, como promoção de direitos humanos, ter dedicação e carinho por quem precisa, ser alegria para todos. O abraço, da ciência, da cultura, das artes, do lazer a todos que fazem deste encontro um espaço sem desencontro, um lugar para criar, a vida que é viva.

 

No segundo dia de atividades, 21 de Setembro, foram muitos, mais de uma centena de pessoas de todas as idades e gerações, os que participaram numa caminhada ao longo da Marginal da Figueira da Foz, precedida de intervenção da Escola do Riso e seguida de aula de Tai-chi. O exercício físico, o convívio, a atitude foram paradigmas da saúde e bem-estar.

 

 

Conclusões do Fórum Envelhecimento Activo e Saudável e mudança


Os painéis tiveram a moderação de Armindo Carolino (Ordem dos Advogados) e António Cunha (Ordem dos Economistas), de manhã, e de Fernando Ramos (Ordem dos Farmacêuticos) e Hernâni Caniço (Ordem dos Médicos), à tarde.

 
No painel 1, “A Idade, Estatuto e Função”, Catarina Seco Martins (Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa), a propósito do projeto “Tarde demais para empreender?”, referiu que em 2050 mais de 40% da população portuguesa terá mais de 60 anos, tornando Portugal o 2.º país mais envelhecido do mundo. O objetivo da reforma não pode ser o fim da atividade profissional
, e o empreendedorismo pode ser encarado como uma ponte entre o regime de trabalho a tempo inteiro e a passagem à reforma, evitando perda de capital humano e social.

Verifica-se que os empreendedores mais velhos preferem adquirir empresas existentes, em vez de começar do zero, o que isto também denota que a propensão ao crescimento diminui com a idade, o que e tem implicações ao nível económico.


Henrique Testa Vicente (Instituto Miguel Torga), abordando a “A Família, o Género e a Rede Social”, apontou que as redes sociais dos cidadãos com mais de 65 anos são mais centradas nos familiares, e menos em amizades, embora neste aspeto os homens tenham maiores relações sociais do que as mulheres.

Estas redes familiares de elevada proximidade física e emocional são muito pouco abertas ao exterior, o que beneficia a entreajuda e solidariedade entre os membros da rede.

No futuro, teremos de ter em atenção que o menor número de filhos das gerações atuais pesará negativamente nas vantagens que as atuais redes sociais dos idosos proporcionam. Haverá que encontrar alternativas para este problema, pois os idosos sem rede social familiar sofrem mais de isolamento e faltas de apoio. Os idosos são recetores mas também dadores, em reciprocidade e satisfação.


João Carlos Loureiro (Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra) em “Os Direitos Humanos e o Idoso”, considerou que o direito à reforma é um direito do cidadão, constante de vários enquadramentos jurídicos.

Historicamente, o sistema de reformas foi criado para maiores de 70 anos, quando a esperança média de vida era muito inferior.

Atualmente os 67 anos são os novos 65. O aumento da idade da reforma é inevitável, e eventualmente será necessário efetuar alguns cortes em reformas já atribuídas.

De forma original, João Loureiro propôs que o Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz se transformasse em Centro de Artes do Envelhecimento.


No painel 2, “Saúde e Vida”, Manuel Villaverde Cabral (Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa), dissertando sobre “Envelhecimento ativo: pragmática, ideologia e biopolítica”, afirmou que a adoção de práticas associadas às recomendações do «envelhecimento ativo» por parte dos seniores portugueses (50+) é claramente minoritária.

Há uma predisposição favorável ao «envelhecimento ativo» por parte do segmento sénior mais jovem (50-64 anos), nomeadamente no que respeita a cerca de metade dos inquiridos profissionalmente ativos, que revelam uma atitude prospetiva favorável ao «envelhecimento ativo», tanto no sentido do adiamento da idade da reforma como do trabalho após a reforma.

Sendo o emprego, o domínio em que o desempenho dos seniores portugueses é comparativamente melhor à escala europeia, existe uma dimensão fundamental da ideologia do «envelhecimento ativo», cuja evolução permanece pouco definida, em virtude da própria conjuntura económica e financeira.

Há um carácter ideológico nas práticas do envelhecimento ativo, que deveria relevar a noção de partilha e distribuição, e poderia ser beneficiado pela criação de secretaria de estado da terceira idade.


Manuel Teixeira Veríssimo (Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra), em “A Promoção da Saúde o Idoso”, identificou o envelhecimento como uma conquista do homem e da sociedade, mas também um desafio, quer para os profissionais que trabalham no âmbito da promoção do envelhecimento ativo e saudável, quer para as instituições e profissionais que lidam com os idosos, quer ainda para as famílias, que têm que de se adaptar a assimilar mais uma geração.

O envelhecimento pode ser contrariado. Entre as medidas que contrariam o envelhecimento estão a atividade física regular, a nutrição equilibrada, a evitação da exposição a tóxicos, o equilíbrio social, a manutenção da atividade psíquica e a prevenção das doenças, em resposta holística.

Os objetivos da promoção da saúde no idoso são aumentar a expectativa de uma vida saudável, manter a autonomia e a independência, evitar ou adiar o aparecimento de doenças crónicas e ensinar a lidar com as limitações inerentes ao envelhecimento.


Francisco Allen Gomes (Psiquiatra, sexólogo), em “A sexualidade das pessoas idosas”, indicou que a expressão da sexualidade ao longo do processo de envelhecimento depende da interação de fatores biológicos, psicológicos e socio-culturais e, nesta perspetiva, o envelhecimento é um fenómeno bio-psico-social.

O tipo de expressão sexual na idade avançada reflete a interação entre o corpo, o espírito e o contexto social, havendo o direito à sexualidade e à escolha.

Todos os estudos realizados até à data são unânimes ao constatar que, com a idade, há declínio progressivo, em homens e mulheres, mas os estudos mostram igualmente que, mesmo nas idades mais avançadas, ainda há um grupo significativo de homens e mulheres sexualmente ativos.

Mas será que se pode esperar uma esperança de vida sexual ativa que acompanhe a esperança média de vida? Depende da presença de três condições: bom estado de saúde física e mental, existência de um relacionamento íntimo e ambiente sócio-cultural favorável.

Com estes três fatores presentes, uma vida sexual ativa terá a duração de uma vida. 

Margarida Pedroso de Lima (Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra), em “A Educação e o Idoso”, anuíu que, face ao envelhecimento, não conhecemos quais os nossos limites: um estilo de vida saudável, para diminuir a probabilidade de condições patológicas; evitar as soluções simplistas, dada a considerável heterogeneidade, direção e diversidade de formas de envelhecer; aumentar a nossa reserva pessoal através da educação, da motivação, do aumento das nossas redes sociais; fomentar ambientes e contextos proativos e desenvolvimentistas; e aceitar que a vida não é só um jogo onde podemos ganhar.

Envelhecimento ativo e melhores práticas na otimização de oportunidades, nomeadamente reduzindo e eliminando barreiras, substituir “envelhecer” por “viver”, são soluções da educação como ferramenta da desmistificação.

 

O futuro das pessoas mais velhas

 

De facto, debateu-se o futuro das pessoas mais velhas em estatuto e função, saúde e vida, estímulo e criatividade, artes sem idade, com o envolvimento intenso e qualitativo das estruturas comunitárias, incluindo a Universidade Sénior da Figueira da Foz, e fez-se a abordagem da ciência e da pedagogia, além da promoção dos estilos de vida saudável.

O Fórum Regional do Centro das Ordens Profissionais, com a excelência do trabalho de Lúcia Santos e Ana Cristina Rama da Ordem dos Farmacêuticos e de João Nunes da Costa da Ordem dos Advogados, e a colaboração assumida e prestimosa da Ordem dos Médicos, contribuiu assim para o futuro das pessoas mais velhas, assim seja também entendido por responsáveis políticos, cidadãos organizados, famílias e cuidadores.

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Ordem dos Médicos