No âmbito da cerimónia de homenagem aos médicos que se inscreveram há 50 e 25 anos na Ordem dos Médicos, coube a Daniel Pereira da Silva a intervenção sobre os colegas que se inscreveram em 1976, evocando o percurso da geração de médicos que iniciou a carreira nos primeiros anos da democracia e que ajudou a construir o Serviço Nacional de Saúde (SNS), deixando uma homenagem aos colegas, famílias e profissionais já falecidos. Na sessão, recordou o entusiasmo vivido após o 25 de Abril, sublinhando que a sua geração acreditava ser capaz de transformar o mundo. “Hoje percebemos que não mudámos o mundo, mas temos a justa sensação de ter contribuído para mudar o mundo de muitos”, afirmou.
Daniel Pereira da Silva destacou o papel desempenhado pelos médicos na consolidação do SNS, classificando-o como “a obra maior da democracia portuguesa”, e lembrou os avanços registados nas últimas cinco décadas, desde o aumento da esperança média de vida à redução da mortalidade infantil e à democratização do acesso aos cuidados de saúde. Enalteceu também a evolução da prática médica, desde uma medicina mais baseada na autoridade até à afirmação da medicina baseada na evidência científica, da qual a sua geração foi protagonista. Salientou igualmente a transformação da relação médico-doente, hoje mais centrada na comunicação, na empatia e na partilha da decisão clínica.
Uma parte significativa da sua intervenção foi dedicada aos desafios colocados pela Inteligência Artificial. Embora reconheça o enorme potencial destas tecnologias para melhorar diagnósticos, personalizar tratamentos e reduzir erros, Daniel Pereira da Silva alertou para as questões éticas e humanas que se colocam à profissão. Defendeu que, mesmo num contexto de crescente automatização, permanecerão insubstituíveis valores como a compaixão, a responsabilidade, a confiança e a relação humana. “Porque a medicina nunca foi apenas ciência. Foi sempre também relação humana, compaixão, confiança, responsabilidade ética e moral, e capacidade de cuidar”, afirmou.
Num discurso marcado pela memória, pela gratidão e pela reflexão sobre o futuro, o médico prestou homenagem aos colegas que já partiram, agradeceu às famílias pelo apoio ao longo de décadas de dedicação profissional e concluiu com uma mensagem de esperança às novas gerações, desejando que possam construir vidas “tão plenas, produtivas e generosas” como as da geração que agora celebra meio século de exercício da Medicina.
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