No âmbito das celebrações do Dia do Médico, em Coimbra, na cerimónia de homenagem aos médicos inscritos em 1976 e 2001, o Bastonário da Ordem dos Médicos destacou o contributo dos colegas para a construção da medicina portuguesa, do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e para a defesa permanente dos doentes.
Dirigindo-se aos médicos com 50 anos de inscrição, sublinhou o papel determinante da sua geração na modernização da medicina em Portugal, recordando o Serviço Médico à Periferia como uma experiência marcante de proximidade, humanismo e combate às desigualdades no acesso aos cuidados de saúde. Salientou ainda que estes profissionais abriram caminho à criação do SNS, uma das maiores conquistas da democracia portuguesa, assente no princípio de que o acesso à saúde não deve depender da condição económica ou do local onde se nasce.
Aos médicos que completam 25 anos de inscrição, o Bastonário reconheceu o esforço desenvolvido ao longo de um período marcado por crescente pressão assistencial, escassez de recursos, exigências tecnológicas, burocracia e sucessivas crises, com especial destaque para a resposta à pandemia de COVID-19. “Quando tudo vacila, os médicos ficam”, afirmou, enaltecendo a dedicação da classe na preservação da qualidade dos cuidados de saúde. O discurso centrou-se também na integração da Inteligência Artificial (IA) na medicina, identificada como o grande desafio da atualidade. O Bastonário defendeu que a IA deve reforçar o trabalho médico, nunca substituí-lo, colocando sempre a segurança clínica, a ética, a equidade no acesso aos cuidados e a relação médico-doente no centro da sua utilização. Recorrendo a uma reflexão da especialista em Inteligência Artificial Fei-Fei Li, alertou para a necessidade de garantir que o desenvolvimento tecnológico seja acompanhado por responsabilidade, validação científica, transparência e proteção de dados, colocando sempre os valores humanos acima dos interesses económicos.
O Bastonário apelou igualmente ao investimento na formação, valorização e fixação dos jovens médicos no SNS, considerando que “cuidar de quem cuida não é uma cortesia, é uma política de saúde”. Na conclusão da intervenção, afirmou que a atual geração de médicos tem a responsabilidade de colocar a Inteligência Artificial ao serviço da dignidade humana, da equidade e da confiança dos cidadãos, deixando uma mensagem de esperança inspirada nas palavras de Václav Havel.
“O futuro será digital. Que seja também justo. Será inteligente. Que seja também humano. Será tecnológico. Que continue a ter, no seu centro, uma pessoa que sofre e sempre um médico para cuidar dela.”
Publicamos o discurso, na íntegra: