Conferência “Desafios atuais para um SNS sustentável” juntou os presidentes da Ordem dos Médicos – Secção Regional do Centro, das ULS de Coimbra e do Baixo Mondego, da Escola Superior de Tecnologia e Saúde de Coimbra e o diretor clínico do Hospital CUF Coimbra. A conferência “Saúde’26 – Desafios atuais para um SNS sustentável” foi promovida pelo DIÁRIO AS BEIRAS, cujo diretor, Agostinho Franklin foi o anfitrião. O evento, que reuniu representantes de diferentes áreas do setor da saúde — gestão hospitalar pública e privada, Ordem dos Médicos e ensino superior — para refletirem sobre os desafios que o SNS enfrenta e os caminhos para garantir a sua sustentabilidade, decorreu no dia 8 de julho no auditório do Edifício AT Business Center, sede do jornal

Manuel Teixeira Veríssimo defende reforma profunda do SNS com maior aposta nos cuidados de saúde primários
O presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, Manuel Teixeira Veríssimo, defendeu uma reforma estrutural do Serviço Nacional de Saúde (SNS), baseada na valorização dos cuidados de saúde primários, na prevenção da doença, no reforço do apoio domiciliário e na avaliação do desempenho dos profissionais de saúde. Ao intervir nesta conferência, que foi difundida em direto no canal de Youtube do Diário As Beiras, sustentou que o atual modelo continua demasiado centrado no hospital. “Temos de fazer uma reforma, e não apenas mudar algumas coisas de sítio. É necessário transferir o centro do sistema de saúde do hospital para os cuidados de saúde primários”, afirmou. Na sua perspetiva, esta mudança de paradigma passa por atribuir ao médico de família um papel central na gestão do percurso clínico de cada cidadão.

“O gestor do doente deve ser o médico de família”, defendeu, explicando que este acompanhamento contínuo permite não apenas tratar a doença, mas, sobretudo, investir na prevenção e na promoção da saúde. Na sua opinião, uma aposta consistente na prevenção traduz-se, a médio e longo prazo, em menos episódios de doença, menos internamentos e menores custos para o SNS. O presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos considerou ainda que o modelo das Unidades Locais de Saúde (ULS) cria condições favoráveis para esta abordagem integrada, uma vez que incentiva a redução da doença através da prevenção e da articulação entre os diferentes níveis de cuidados. O Médico de família é decisivo, sublinhou, e deverá ter o papel central na gestão do percurso clínico do utente e na prevenção da doença. Na sua opinião, investir na prevenção permite promover um envelhecimento saudável e reduzir a necessidade de institucionalização. Nesta linha de raciocínio, considerou que outro dos pilares da reforma defendida passa pelo reforço do apoio domiciliário, permitindo que mais idosos permaneçam nas suas casas com qualidade de vida. “Uma parte significativa das pessoas que hoje vivem em lares poderia continuar em casa se tivesse o apoio necessário”, sublinhou, referindo cuidados de saúde, apoio social, ajuda nas tarefas domésticas e acompanhamento comunitário como respostas essenciais. Além de proporcionar maior bem-estar aos utentes, esta solução seria, a seu ver, mais sustentável do ponto de vista financeiro. O responsável referiu que cerca de metade das pessoas atualmente em ERPI poderiam continuar a viver nas suas residências se dispusessem de apoio domiciliário adequado.
Para o Professor Jubilado de Medicina da Universidade de Coimbra e pioneiro no estudo e ensino da Geriatria em Portugal, a integração entre hospitais, centros de saúde e respostas sociais é igualmente indispensável para responder ao envelhecimento da população e às novas necessidades dos cidadãos. Manuel Teixeira Veríssimo defendeu ainda alterações profundas na organização interna do SNS, nomeadamente através da criação de mecanismos de avaliação do desempenho dos profissionais. “Temos de avaliar o que cada um faz e cada um deve ser recompensado de acordo com os seus resultados”, afirmou, considerando que o atual modelo não distingue quem apresenta melhor desempenho de quem revela menor produtividade. Na sua perspetiva, a avaliação deve ter em conta não apenas a quantidade de trabalho realizado, mas também a qualidade dos cuidados prestados, criando incentivos ao mérito e promovendo maior responsabilização individual e coletiva. O especialista considera igualmente necessária uma reforma da organização hospitalar, defendendo modelos de gestão mais modernos, assentes em equipas multidisciplinares, objetivos partilhados e responsabilização pelos resultados. “Todos devem ganhar quando as coisas correm bem e todos devem perder quando correm mal”, sintetizou, defendendo que uma cultura de responsabilidade e colaboração permitirá reduzir desperdícios, aumentar a eficiência e contribuir para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.

Modelo das ULS ainda em fase de consolidação
As Unidades Locais de Saúde (ULS), implementadas há cerca de dois anos, estiveram, pois, no centro do debate. Apesar do consenso quanto ao potencial deste modelo para integrar todos os níveis de cuidados de saúde, os oradores consideraram que ainda é cedo para avaliar plenamente os seus resultados e identificar as mudanças necessárias. O presidente do Conselho de Administração da ULS de Coimbra, Francisco Maio Matos, reconheceu que a integração prevista pelo modelo “ainda não está completamente aplicada no terreno”. Anunciou, contudo, que será assinada na próxima semana uma Carta de Compromisso entre a ULS e os municípios da sua área de influência, bem como com outras ULS não integradas em centros académicos. Revelou ainda a criação de um Centro Colaborativo da Organização Mundial da Saúde dedicado à integração dos cuidados de saúde ao longo do ciclo de vida.

Já Ricardo Leão diretor clínico do Hospital CUF Coimbra, admitiu que o conceito das ULS “pode ser bom”, mas defendeu que importa perceber “de que forma o investimento realizado se traduz em ganhos concretos para os utentes”. Afirmou: “Gostava de saber como todo este investimento se vai refletir na melhoria dos cuidados de saúde prestados ao doente”, acrescentando que, para já, tem dificuldade em identificar esses ganhos.

Por sua vez, a presidente do Conselho de Administração da ULS do Baixo Mondego, Ana Raquel Santos, garantiu que a integração clínica já está a produzir resultados na instituição que dirige, destacando a Plataforma Clínico-Social, uma ferramenta digital que articula cuidados de saúde e apoio social para utentes vulneráveis, em ligação com as Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI).

O doente no centro do sistema
Recorde-se que, para Manuel Teixeira Veríssimo o verdadeiro objetivo das ULS é assegurar que “não seja o doente a andar atrás dos cuidados de saúde”. Embora reconheça que algumas unidades têm evoluído mais do que outras, considera indispensável avaliar o funcionamento do modelo e medir os ganhos efetivos para a população.

Também Graciano Paulo, presidente da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra (ESTeSC), defendeu que a sustentabilidade do SNS não pode ser analisada apenas sob a perspetiva financeira. Na sua opinião, a gestão dos recursos humanos é igualmente determinante. Defendeu uma maior cooperação entre os setores público, privado e social, mas considerou que os novos médicos deveriam optar por uma única carreira, evitando a acumulação de funções nos dois setores. Sobre as ULS, afirmou que o modelo “chegou tarde”, embora represente um passo importante na integração dos cuidados de saúde, exigindo agora maior investimento.
Por outro lado, a presidente da ULS do Baixo Mondego enfatizou que o SNS deve evoluir em parceria com a comunidade.Na intervenção dedicada ao futuro do SNS, Ana Raquel Santos defendeu que o sistema deve evoluir “em comunidade”, envolvendo as autarquias na resposta aos desafios demográficos e sociais das próximas décadas.
“Não vale a pena pensar que agora devíamos mudar tudo. Temos de preparar o SNS para os próximos 10 a 15 anos e as autarquias têm de fazer parte da solução”, afirmou. A gestora sublinhou ainda que o envelhecimento da população exige uma aposta na permanência dos idosos nas suas casas, com respostas de proximidade, em vez da institucionalização.

O SNS continua a ser atrativo para profissionais, sublinhou, por seu turno, o presidente da ULS de Coimbra. Francisco Maio Matos procurou contrariar algumas ideias feitas sobre a dificuldade do SNS em atrair profissionais de saúde. “Não sou catastrofista e quero desmontar uma série de narrativas que os factos provam que não são verdade”, afirmou, recordando que, pela primeira vez, todas as vagas abertas recentemente para os cuidados de saúde primários da ULS de Coimbra foram preenchidas.
Informação integrada continua a ser um desafio, alertouo diretor clínico do Hospital CUF. Ricardo Leão criticou a ausência de um sistema nacional de informação clínica verdadeiramente integrado, considerando que esta realidade contribui para aumentar os custos do SNS.
“O que não deixa de ser aterrador é que não sabemos exatamente quanto gastamos com a saúde”, afirmou. Como exemplo, referiu que todos os hospitais CUF partilham um sistema único de informação clínica, permitindo o acesso aos exames realizados pelos doentes em qualquer unidade do grupo. Na sua opinião, a inexistência de uma solução semelhante no SNS resulta de “inoperância”. Acrescentou ainda que a despesa do SNS aumentou 77% na última década, enquanto no setor privado o crescimento foi de 23%.
Corrigir as assimetrias do território é fundamental, defendeu o presidente daESTeSC.Graciano Paulo alertou também para as desigualdades na distribuição da oferta de cuidados de saúde em Portugal. “Num país brutalmente assimétrico, não pode ser o SNS a pagar a fatura da desorganização”, afirmou. Recordou ainda que grande parte das infraestruturas de saúde continua concentrada no litoral, obrigando milhares de utentes do interior a deslocações frequentes. Como consequência, o transporte de doentes não urgentes representa atualmente uma despesa anual de cerca de 212 milhões de euros, valor que duplicou na última década.”Temos de tirar estas ambulâncias das estradas”, concluiu.
A conferência Saúde’26 reafirma o contributo e a missão do Diário As Beiras com a promoção do debate público sobre temas de relevante interesse nacional, contribuindo, neste caso, para uma reflexão sobre o futuro da Saúde em Portugal.
A conferência contou com a moderação da Chefe de redação Dora Loureiro, jornalista no Diário As Beiras desde a sua fundação, em março de 1994 (tendo ingressado em 1992, quando este título tinha a periodicidade semanal). Na sua vasta carreira, foi colaboradora no jornal especializado Tempo Medicina, de Lisboa, sendo, aliás, a área da Saúde parte significativa do seu trabalho ao longo das décadas.
