Debate na FEUC: “Entre o Público e o Privado, onde fica a saúde?”

Debate na FEUC: “Entre o Público e o Privado, onde fica a saúde?”

Integrado na 10.ª edição da Académica Start UC, a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC) acolheu o debate “Entre o Público e o Privado, onde fica a saúde?”, uma iniciativa centrada na reflexão sobre os principais desafios do setor da saúde em Portugal. A conferência promoveu a análise das questões atuais, das diferentes perspetivas em presença e do futuro do acesso aos cuidados de saúde no país.

O debate, realizado no dia 6 de maio de 2026, no auditório da FEUC, contou com a participação do presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, Manuel Teixeira Veríssimo, do administrador executivo do Hospital da Luz Coimbra e do Hospital da Luz Aveiro, Pedro Beja Afonso, bem como, em formato remoto, do infeciologista e especialista em Medicina Intensiva António Sarmento e da ex-ministra da Saúde Maria de Belém Roseira.

Moderada pelo jornalista António Cerca Martins, a sessão reuniu intervenções assentes em perspetivas distintas e, por vezes, divergentes, mas convergentes na ideia de que a sustentabilidade do setor da saúde exige investimento acompanhado de rigor, avaliação de resultados e foco na melhoria da resposta prestada aos utentes. A condução do debate, apoiada nas questões colocadas pelo jornalista do Diário As Beiras, contribuiu para a dinâmica e fluidez da discussão.

Maria de Belém Roseira, que presidiu à comissão criada pelo Despacho n.º 1222-A/2018 para a revisão da Lei de Bases da Saúde — responsável por uma proposta orientada para a modernização do Serviço Nacional de Saúde (SNS) — começou por sublinhar o direito à proteção da saúde como princípio fundamental e estruturante do sistema.

Assumindo uma posição crítica face ao crescimento da privatização no setor, António Sarmento, diretor de serviço no Hospital de São João, alertou para a proliferação de unidades privadas de saúde. “Os hospitais privados surgem como cogumelos porque alguma coisa não está bem no SNS. Não tenho preconceitos ideológicos; o que importa é o sentido ético”, afirmou. O especialista destacou ainda o aumento significativo dos custos em saúde e lamentou que “a resposta do SNS comece, infelizmente, a tornar-se uma ilusão”. António Sarmento referiu também com pesar o facto de Fernando Araújo, primeiro diretor executivo do SNS, não ter conseguido concretizar o seu projeto de reforma e reorganização da resposta pública.

Questionado pelo moderador sobre a aparente contradição entre os sucessivos orçamentos recorde para a saúde e a crescente perceção de falta de resposta por parte dos utentes, Manuel Teixeira Veríssimo apontou a gestão como o principal problema. “Colocar mais dinheiro em algo que não funciona bem não é, necessariamente, a melhor solução. Defendo há vários anos — também com base na experiência em gestão hospitalar — que o essencial é reformular a forma como os recursos são aplicados”, afirmou. O presidente da SRCOM recordou ainda que “o orçamento da saúde duplicou em dez anos”, sem que isso se tenha traduzido numa melhoria da perceção dos cuidados prestados. “É fundamental reformar o SNS para que, com os mesmos recursos, se consigam melhores resultados. Trata-se de uma questão de eficiência”, acrescentou.

Pedro Beja Afonso, que já desempenhou cargos de administração hospitalar da rede pública durante duas décadas, assumiu que o mais importante é que o Estado possa garantir o acesso à Saúde, sem que para tal as pessoas empobreçam quando estão doentes. “Nós andamos há décadas sem medidas inovadoras no sistema de saúde público. Não há audácia para inovar”, lamentou. Pedro Beja Afonso considera importante retirar a ideologia do pensamento crítico sobre esta área complexo e que se deve pensar em complementaridade e não em antagonismo. “O contexto em que foi criado o modelo do SNS é muito diferente da atualidade, os profissionais têm outras expectativas. Deveríamos experienciar outros modelos”.

Além de colocar em destaque o lugar central das políticas de saúde e do urgente debate em torno do serviço nacional de saúde em tempos de menor capacidade financeira, Maria de Belém Roseira frisou o facto da Saúde integrar “um Direito social fundamental, é um Direito humano” e, como tal, a diferença não se deve cingir unicamente a esta dicotomia de ser pública ou de ser privada, lembrando aliás a lei fundadora do SNS que estipulava que o SNS seria um sistema misto e não apenas estatizante. “O SNS coexistiu com convenções desde o início. O SNS é um instrumento que tem de garantir a realização do direito à proteção da Saúde, assente na solidariedade, e isso não significa que deva fazer tudo pois temos uma economia débil que não é suficiente para financiar”, sublinhou a antiga governante. A seu ver, “as regras de gestão do Estado que foram feitas para a administração pública” devem ser questionadas, tendo em vista os melhores procedimentos de controlo dos recursos humanos e os procedimentos para as aquisições.

A este propósito, António Sarmento alertou para as dificuldades do SNS em competir com o setor privado, dando como exemplo o facto de ter aguardado dois anos para conseguir contratar mais um médico para a sua equipa. Maria de Belém Roseira defendeu, também, que os centros de saúde deveriam assumir um papel mais ativo na resposta à doença aguda.

Manuel Teixeira Veríssimo considera que a sustentabilidade do SNS implica uma visão integrada que combine investimento estratégico, valorização profissional (com estímulos), inovação tecnológica e promoção da saúde. O dirigente considera fundamental preservar um sistema público universal, equitativo e capaz de responder às necessidades das gerações presentes e futuras. Para isso, considera indispensável reformar o modelo de funcionamento do SNS, observando que muitas instituições continuam a operar segundo lógicas organizativas com várias décadas. “O médico, esteja no setor público ou no privado, tem de pensar acima de tudo no doente”, concluiu.

O debate decorreu perante uma plateia estudantil atenta e participativa, evidenciando o interesse dos jovens nas questões relacionadas com o futuro da Saúde em Portugal.

# O que é a Académica Start UC?

A Académica Start UC é a Rede de Embaixadores/as para o Empreendedorismo da Universidade de Coimbra, mais conhecida por ASUC. Foi criada pela Universidade de Coimbra (UC) e pela Associação Académica de Coimbra (AAC) no ano letivo 2016/2017, com o apoio do Santander Universidades. Trata-se de um programa reconhecido para a formação de jovens líderes, no qual os estudantes, representantes dos 26 núcleos da AAC, juntamente com cinco estudantes de Doutoramento, são formados durante um ano com o intuito de sensibilizar os seus pares para questões associadas à Inovação e ao Empreendedorismo através da promoção de uma política de proximidade e da realização de iniciativas locais. Anualmente os vencedores são agraciados com um curso internacional na área do empreendedorismo. Trata-se, pois, de um projeto de sensibilização, educação e formação para a inovação e empreendedorismo, envolvendo estudantes da UC, de diferentes áreas do saber.

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