“Que sistema de Saúde queremos em 2035?”

“Que sistema de Saúde queremos em 2035?”

Health Economics Summit estreia-se em Portugal para aproximar Medicina e Economia. Coimbra deu o mote, juntando quase 130 alunos durante três dias.

Nos dias 17, 18 e 19 de abril de 2026, Coimbra foi palco da primeira edição do Health Economics Summit, um congresso pioneiro em Portugal que nasceu da colaboração entre o Núcleo de Estudantes de Medicina e o Núcleo de Estudantes de Economia da Associação Académica de Coimbra. O evento visou aproximar duas áreas fundamentais e cada vez mais interligadas: a Medicina e a Economia. O evento, inédito, pretendeu ainda contribuir para a formação de profissionais mais preparados para os desafios dos sistemas de saúde contemporâneos.

Ora, neste contexto, o futuro do sistema de saúde em Portugal esteve em destaque num dos momentos mais aguardados do Health Economics Summit, com o painel “Que sistema de saúde queremos em 2035?”.

A sessão reuniu especialistas de diferentes áreas para uma reflexão abrangente sobre os desafios e oportunidades que o setor da saúde poderá enfrentar na próxima década. O painel contou com a participação de Manuel Teixeira Veríssimo, médico especialista em Medicina Interna, pioneiro da Geriatria em Portugal e atual presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos; Hélder Filipe, bastonário da Ordem dos Farmacêuticos; Graça Telo, ex-diretora do Hospital CUF Coimbra e doutoranda em Ciências Sociais e Envelhecimento; Rui Tato Marinho, assistente graduado sénior de Gastrenterologia e presidente da Comissão de Ética Para a Investigação Clínica; e Rui Nogueira, especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) e atual Coordenador do Internato de MGF da Zona Centro. A moderação esteve a cargo de Duarte Tude Graça, médico e docente na área da gestão em Saúde, que conduziu o debate entre diferentes perspetivas clínicas, institucionais e estratégicas.

Com este painel diversificado, a sessão visou promover uma partilha de perspetivas e de dimensões sobre importantes temas, tais como a sustentabilidade do sistema, a organização dos cuidados de saúde, o papel das diferentes profissões e a adaptação às necessidades futuras da população. A organização destacou este momento como imperdível para todos os interessados em contribuir para a construção de um sistema de saúde mais eficiente, acessível e preparado para 2035.

O contexto da Saúde, no caso português, é, pois, um desafio: alterações demográficas, elevado índice de envelhecimento, ajustes formativos, falta de recursos humanos, modelo de acesso aos cuidados com problemas e necessário ajuste na inovação.

O Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos chamou, desde logo, a atenção para a conjuntura internacional, a perceção dos portugueses sobre o seu sistema de Saúde e a sustentabilidade. Sublinhou Hélder Mota Filipe: “É bom que as gerações mais novas possam mudar o nosso SNS para continuarmos a garantir cuidados de saúde aos nossos cidadãos”.

Manuel Teixeira Veríssimo defendeu “a reforma do atual sistema”, afirmando que, sem ela, será difícil concretizar a mudança necessária. Na sua perspetiva, o sistema de saúde deve funcionar de forma integrada, articulando os cuidados de saúde primários, hospitalares e a vertente social, e abandonando a lógica hospitalocêntrica que domina a resposta ao doente. “O sistema deve organizar-se para ir ao encontro do doente”, destacou. Acrescentou ainda que é essencial integrar os cuidados continuados, paliativos e de Saúde Pública.

Questionado pelo moderador sobre o papel dos cidadãos na área da Saúde, o Professor de Medicina Interna lamentou o baixo nível de literacia em saúde da população portuguesa, salientando que “é desde cedo, no ensino, que se deve apostar na aprendizagem de hábitos de vida saudáveis”. Defendeu também a criação da especialidade de Geriatria, observando que “não devemos tentar parar o vento com as mãos” — uma metáfora com que ilustrou a inevitabilidade da evolução científica.

Rui Nogueira, por seu turno, acrescentou ainda a necessidade de apostar, para além de literacia em saúde, também em comunicação. “Temos de trabalhar em rede”, assumiu, “juntando também as autarquias”. Sublinhou: “Tal como defendeu o Professor Manuel Teixeira Veríssimo, devemos abandonar a primazia da resposta hospitalar, de forma a trabalhar de forma integrada”.

Graça Telo Gonçalves havia já alertado para os múltiplos impactos do envelhecimento e do aumento da longevidade nos sistemas de saúde a nível global. “O sistema de saúde vai ser radicalmente diferente”, afirmou, sublinhando a importância de reforçar a prevenção. Ao interpelar a plateia sobre quem gostaria de morrer cedo — sem obter respostas afirmativas —, a investigadora destacou a necessidade de políticas que enfrentem, de forma integrada, este desafio demográfico, a escassez de profissionais de saúde e a articulação entre os diferentes níveis de cuidados.

Por sua vez, o presidente da Comissão de Ética para a Investigação Clínica, Rui Tato Marinho, salientou a urgência de valorizar adequadamente os profissionais de saúde, considerando também a crescente feminização destas profissões — e os desafios que lhe estão associados —, bem como a necessidade de dar particular atenção a uma população que vive cada vez mais anos com os riscos para a saúde daí inerentes (demências, cancros, etc).

Esta conferência foi unanimemente considerada um momento significativo de reflexão, mas, cujo horizonte, está muito perto, dado o devir da Ciência.

Ao longo de três dias, os participantes acederam a um programa diversificado que incluiu sessões plenárias com especialistas de referência, workshops práticos orientados para a aplicação de conhecimentos, momentos de networking através das Bridge Talks e, ainda, uma competição de gestão hospitalar para testar competências em contexto simulado. Foram explorados diversos temas, tais como o acesso ao medicamento, a eficiência do SNS e o impacto da inteligência artificial na Saúde.

Mais do que um congresso, o Health Economics Summit teve uma forte componente interdisciplinar com o objetivo de estimular a partilha de ideias e potenciar o desenvolvimento académico e profissional na área da Economia da Saúde.

©SRCOM

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