20 de novembro 2020

Teatro

Teatrão e ESEC com "Rumo aos céus" de Odon Von Horváth

Ao abrigo do protocolo entre a Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos e o Teatrão, aqui divulgamos mais um espectáculo e uma produção que resulta, desta feita, do Curso de Teatro e Educação em colaboração com o Teatrão, de 20 a 27 de novembro (de segunda a sexta às 20h30), na Oficina Municipal do Teatro.

'SINOPSE
Entre rumar aos céus ou fugir do inferno nunca sabemos onde o comportamento em vida nos leva. Ödön von Horváth mostra-nos a fragilidade do ser humano e as possíveis consequências que ninguém espera depois da morte. A peça decorre entre o Céu, a Terra e o Inferno. Na Terra assistimos à luta de Luísa, uma jovem atriz que aguarda por uma oportunidade para mostrar o seu talento. No seu caminho estão o porteiro e, principalmente, o Diretor de um teatro que fecham as janelas de oportunidades aos mais jovens. No Céu está a mãe de Luísa que tenta que São Pedro interceda por ela e ao Inferno vai parar o Diretor, depois de um fulminante ataque cardíaco. Céu e Inferno negoceiam e gerem a Terra e o destino das suas almas com surpreendente cumplicidade. Ao Diretor é dada uma segunda oportunidade desde que leve Luísa, a jovem aspirante a atriz, a vender a sua alma ao Diabo. No Céu, São Pedro mente descaradamente à mãe de Luísa escondendo-lhe a vida que esta leva na Terra. Uns metros mais a baixo, no Inferno encontramos o Diabo na posição de tentar tornar as almas condenadas em seres humanos dignos para rumar aos Céus. O mundo está virado do avesso com os caminhos que se esperavam pacíficos a tornarem-se numa montanha-russa cheia de incógnitas e o destino de cada um torna-se tão incerto que pode estilhaçar qualquer visão utópica que se tenha construído na Terra.

NOTA DE ENCENAÇÃO
Às vezes passámos por uma casa, uma casa antiga, e temos vontade de entrar. Já passámos os olhos por ela muitas vezes. Já nos tinham falado dela e por isso queremos saber como é por dentro. Esta peça, Rumo aos céus, de Ödön Von Horváth, é essa casa antiga que apetece entrar para conhecer, habitar. Entrámos nela sem saber bem porquê. Mas tal como na vida, nem tudo se explica. A primeira impressão foi de que as tábuas do chão rangiam muito, parecia ter demasiadas divisões (o que não era mau pois eram 17 novos inquilinos para a habitar), mas os espaços eram muito apertados e datados no tempo.
Lemos que o autor escolheu, para esta peça, uma parábola, uma narrativa alegórica com preceito moral para falar da ascensão nazi, dos campos de concentração, do culto da personalidade, uma reflexão sobre a condição humana, como se o destino, o da humanidade fosse jogado por entes superiores, e não por nossa escolha. Esta peça foi a forma de o autor problematizar a realidade em que estava imerso em 1934, data da escrita da peça.
Já a nossa realidade, em 2020, foi superada por um acontecimento que mudou o rumo das nossas vidas. Ficamos confinados em casa no 2º semestre, quando deveríamos estar a ensaiar presencialmente este estágio. Tivemos aulas por Zoom. Durante meses inventámos outras formas de continuar vivos: traduzimos e fizemos leituras encenadas online de textos dramáticos, expusemos as nossas angústias em peças originais, pelo meio fomos perdendo soldados pelo caminho e no fim estivemos quase a dar por terminado este Estágio (eu já tinha atirado a toalha ao chão), como deram quase todos os outros das escolas superiores de teatro pelo País. Mas, honra feita a estes alunos que lutaram por isso, a vontade de terminar o curso em palco foi maior e aqui estamos.
Talvez tenhamos entrado nesta peça de teatro, que é uma casa, para dizer que continuamos aqui, vivos. A lutar. Mesmo que não consigamos saber nomear o porquê de toda esta luta. Ainda assim decidimos que iríamos tentar habitá-lo. Tínhamos 6 semanas para o preparar. Uma empreitada para quem estava acostumado a fazê-lo em 4 meses. Tivemos de separar o essencial do supérfluo. Saltar algumas etapas. Os atores tiveram de fazer o trabalho previamente, sozinhos, cada um no seu domicílio, antes de embarcámos na aventura de reconstruir esta casa que é uma peça. Dissecámo-la, raspámos a tinta, retirámos o papel de parede para perceber como eram as suas fundações. Fizemos algumas operações: desdobramos a Luísa, passaram a ser muitas a lutar por um sonho comum: singrar, ter sucesso no teatro, mas só deixámos lugar para uma. Alteramos a sucessão de cenas, ficaram menos estanques, derrubámos paredes e abrimos um openspace, mudamos o casting tipificado que pedia o texto, inventámos um call center para as preces a Deus, um parvo, um programa de segundas oportunidades e ainda assim as fundações desta casa permaneceram intactas. O autor construiu uma casa que permite alterações à sua volumetria, mas exige minúcia nos reparos, pois uma viga mal alterada pode deitar toda a casa abaixo como um castelo de cartas. Não temos como fugir à representação do Céu e do Inferno. Do São Pedro e do Diabo. Da corriqueira comédia popular. Da venda da alma ao Diabo. Não há como escapar a essa cosmogonia. E muito menos das pessoas na terra a lutar, a sobreviver cá em baixo na terra. Desamparadas. Sem saber para onde ir. Muitas das vezes a sentirem-se um joguete nas mãos dos Anjos e Deuses que se deliciam a jogar com os seus destinos. Em Rumo aos Céus assistimos a esse fatalismo que condena as personagens a um destino já desenhado pelos Deuses, mas o autor (e nós com ele) levanta uma dúvida: será possível que as personagens possam escolher quebrar o seu destino e agarrar uma segunda oportunidade?
Penso que foi isso também que aconteceu com este estágio, que esteve para não acontecer devido ao confinamento. Estes atores finalistas quebraram o destino e agarraram outra oportunidade de estar aqui à vossa frente. Talvez a parábola que vemos no nosso espetáculo seja um reflexo da nossa condição atual: somos pessoas a tentar sobreviver, a fazer escolhas e aceitar as suas consequências. Somos pessoas a tentar dar sentido à nossa vida. A tentar Rumar aos Céus.
RICARDO CORREIA'


FICHA TÉCNICA:
Título Rumo Céus, a partir da obra de Ödön von Horváth
Interpretação | Ana Pereira, Ana Sá, Ana Mendes, Beatriz Franco, Carlos Vieira, Catarina Andrade, Catarina Arteaga, Catarina Bento, Daniela Silva, Fábio Saraiva, Juliana Roseiro, Mariana Rochinha, Micaela Pinto, Pedro Matias, Ricardo Pereira, Rita Alves e Teosson Chau
Encenação, espaço cénico e Dramaturgia | Ricardo Correia
Assistência de Encenação | Mariana Rochinha
Apoio à Dramaturgia | Daniela Silva, Fábio Saraiva e Mariana Rochinha
Desenho de Luz | Jonathan de Azevedo
Apoio de Voz | Cristina Faria
Apoio ao Movimento | Cristina Leandro
Operação de Som | Anabela Rodrigues
Operação de Luz | Matilde Fachada
Espaço cénico | Catarina Arteaga e Teosson Chau
Figurinos e Guarda-Roupa | Catarina Andrade, Fábio Saraiva e Ricardo Pereira
Frente de Casa | Carolina Andrade
Grafismo | Paul Hardman (Teatrão)
Fotografia | Carlos Gomes (Teatrão)
Coordenação de Produção | Isabel Craveiro e Cátia Oliveira (Teatrão)
Produção Executiva | Beatriz Franco e Juliana Roseiro

Interpretação Língua Gestual: Andreia esteves e Pedro Oliveira (Intérpretes) e Magda Lopes (estagiária da Licenciatura em Língua Gestual Portuguesa da ESEC).

Classificação Etária - M/ 12 anos
Curso de Teatro e Educação da ESEC em coprodução com o Teatrão 2020


Agradecimentos: Companhia de Teatro de Almada, Rodrigo Francisco, António Fonseca, Cine-Teatro de Gouveia, Lídia Ribeiro, Cristina Francisco, Alda Antunes, Associação de Estudantes da ESEC, Centro Cultural Penedo da Saudade.


Preços:
4 euros
1 euro (funcionários e alunos da ESEC)

Devido à situação epidemiológica atual é obrigatória a reserva e levantamento antecipado dos bilhetes (damos preferência à compra online)

Bilhetes disponíveis na Ticketline
https://ticketline.sapo.pt/evento/rumo-aos-ceus-coproducao-esec-teatrao-52290

Balcões Fnac e Worten

Informações e reservas:
239 714 013
912 511 302
info@oteatrao.com